Defesa da Natureza por meio da Arte 

Frans Krajcberg não é apenas consagrado no mundo todo por seu trabalho, mas também um pioneiro na arte que produz. Um dos maiores artistas plásticos ainda vivos no século XX, certamente não existe conceito ou estética igual à que ele construiu por meio de suas obras.

Não há liberdade nem defesa para viver. Essa é a grande motivação de um artista singular, que “desperdiçou” boa parte de seus raros 91 anos nas entranhas dos trópicos; num país que sequer lhe confere a devida relevância. O Brasil, que vive um momento acalorado com a Rio+20, parece esquecer que, há exatos 20 anos, Krajcberg era o grande nome da Eco-92, com sua proposta artística cheia de significado.

 

Obra de Frans Krajcberg no Jardim Botânico de Curitiba (2003)

                                                        Obra de Frans Krajcberg no Jardim Botânico de Curitiba (2003)

 

Krajcberg nasceu em Kozienice, na Polônia, no ano de 1921. Sua mãe era líder do partido comunista no país e, segundo ele, foi ela quem o inspirou a pensar e agir politicamente. Durante a Segunda Guerra Mundial, o artista de origem judaica perdeu toda sua família em um campo de concentração, e desde então vem tentando lidar com a irracionalidade humana.

Quando criança, gostava da natureza. Mais tarde, foi a natureza que lhe deu forças para prosseguir, quando ele passou a entender que a arte, em toda sua organicidade, também deveria participar desse processo.

Estudou Engenharia e Artes na Universidade de Leningrado e posteriormente ingressou na Academia de Belas Artes de Stuttgart, na Alemanha. Em 1948, imigrou para o Brasil, no Rio de Janeiro. Uma semana depois, partiu para São Paulo, onde trabalhou como encarregado da manutenção do MAM.

Em 1951, teve duas de suas pinturas expostas na 1ª Bienal Internacional de São Paulo. Mudou-se para o Paraná, onde trabalhou como engenheiro por um tempo. Contudo, decidiu se isolar na mata para poder pintar e fotografar, sendo essa a forma que encontrou para se afastar do homem.

Hoje, vive no Sítio Natural, em Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde também se encontram as suas obras que resistem às ofertas e tentativas do mercado das Artes.

Em 2005, o artista doou um acervo com cerca de 110 esculturas para a Fundação Cultural de Curitiba, obras essas que foram reunidas no Jardim botânico da cidade. Sob o governo de Jaime Lerner, na época, a capital paranaense visava a urbanização e a sustentabilidade. Curitiba havia se candidatado, inclusive, ao título de “Cidade Mundial da Ecologia”. Krajcberg, que ali havia morado nos anos 50, ficou entusiasmado com a notícia.

Tempos depois, ele foi informado de que suas obras estavam em estado precário, por falta de cuidados. Além disso, o local em que as esculturas se encontravam havia permanecido fechado por mais de um ano, sem que ele fosse informado.

De acordo com Paulino Viapiana, Presidente da Fundação Cultural de Curitiba, em 2005 foi feito um diagnóstico de todos os centros culturais do município. O Centro de Conservação e Restauro da Universidade Federal de Minas Gerais constatou que o Espaço Frans Krajcberg não era adequado às obras, feitas com material orgânico, as quais poderiam facilmente se deteriorar.

Em novembro de 2008, um projeto para recuperação dessas esculturas e adequação do espaço foi criado. Foram captados R$ 308 mil, mas para iniciar a restauração seria necessária a autorização do artista. Segundo Viapiana, Krajcberg se recusou a autorizar o serviço.

A indústria de cosméticos Boticário assumiria o Espaço Frans Krajcberg e as obras teriam de ser retiradas. Inconformado com a situação, o artista resolveu reagir acionando a justiça e exigindo suas esculturas de volta. Entretanto, Curitiba não quis abrir mão delas e Krajcberg se viu impelido a tomar outra atitude polêmica: mobilizou pessoalmente uma equipe para retirar suas obras do Parque; cobrindo, do próprio bolso, as despesas de manuseio e transporte para um novo destino: a Bahia.

De acordo com o artista, em declaração para o jornal O Estado de S. Paulo, a situação foi humilhante. “Além de encontrar meus trabalhos quebrados, o novo dono do parque me disse para eu sair de lá. Tenho testemunhas disso. Eu fui a Curitiba ver o estrago, lamentável… Que outro artista no mundo doou, de uma vez, 110 esculturas, fora relevos, fotos, livros? Quem? Quando fui retirar as peças, me disseram para levar tudo, para não deixar nada, para limpar o lugar. Era meu trabalho de anos! Onde vou encontrar a mesma pedra? Onde vou achar aquele mesmo galho?”.

A arte no Brasil, tanto quanto a natureza, pede socorro.

 Curiosidades:

Confira também o trailer do documentário “O Grito de Krajcberg”:

http://www.youtube.com/watch?v=pqTM-p568CM

 Crítica ao desmatamento:

http://www.youtube.com/watch?v=Rn7yIn_RrHY

 

Referência: Estado de São Paulo – Caderno Aliás, pg 5, 17 de junho de 2012

Texto: Luna Recaldes e Tatiana Matteoni

Imagem: Companhia de Restauro