Do moderno ao arcaico

Artista Henrique Oliveira cria para o MAC-USP instalação que remete a uma caverna

Paredes de um cubo branco vão se transformando, aos poucos, em corredores de alvenaria popular; em seguida, em caminhos de taipa; até se metamorfosearem em uma caverna de tapumes. No final do percurso, estranho e labiríntico, encontram-se grandes galhos de uma árvore – a instalação Transarquitetônica, que Henrique Oliveira criou especialmente para o prédio anexo do Museu de Arte Contemporânea da USP, é um percurso de passagem do tempo, uma narrativa linear.
“Numa ponta, você tem uma ideia de arquitetura moderna, de um espaço neutro, como um corredor de hospital, que representa o momento contemporâneo. Do outro, os galhos representam a primeira moradia do homem-macaco, anterior ao homo sapiens”, descreve o artista. Ele recusa o termo monumental para definir sua obra, mas ela é um vultoso corpo de cerca de 70 metros de comprimento pelo qual o visitante é convidado a adentrar, percorrer pela própria experiência.
Ou, por outro lado, o espectador pode contemplar a instalação de fora, do extenso primeiro andar do espaço expositivo.
Dali, Transarquitetônica é vista como um “objeto” orgânico “contínuo”, que parece ter-se acomodado, lentamente, na construção original do arquiteto Oscar Niemeyer, uma grande sala longitudinal branca, de 1.600 m², pontuada por 13 colunas.
No inevitável símbolo modernista, o novo trabalho de Henrique Oliveira é mais que a criação de um corpo cavernoso,
feito com os tapumes que já são sua técnica característica. A obra do artista, erguida durante dois meses e que consumiu
orçamento de R$ 700 mil, ganha outras camadas, ousadas. Torna-se, também, uma reflexão sobre arquitetura, com ramificações interpretativas de ordem política, crítica.
“É possível ver o trabalho como uma coisa que começa com um cubo branco, com esse idealismo da forma (a arquitetura branquinha para ser vista) que se liga à ideia de uma cultura que se faz na modernidade e vai se ramificando para formas de moradia populares que são a realidade”, diz Henrique Oliveira, que já tinha projeto antigo de misturar tipos de construções diferentes em uma grande instalação. “Se você pensar em Brasília, a cidade foi concebida para ser aquela coisa monumental, limpa e plástica, mas toda uma periferia foi se desenvolvendo em volta.” “O Brasil é um pouco
isso: a distância entre os ideais e o que acontece na maior parte do País é muito grande”, continua o artista, convidado no ano passado a criar um trabalho para o anexo do MAC-USP.
Como ele conta, já lhe foi questionado se sua escolha por usar os tapumes em suas instalações tinha como ensejo fazer menção a favelas. É verdade que as lascas de compensado descartável – “superbarato, de pouca durabilidade” – que utiliza em suas obras já podem ser consideradas um material tipicamente brasileiro. Mas, na verdade, Henrique Oliveira
chegou a esse elemento por intermédio de sua produção como pintor.
“Sempre tive uma atração por fazer uma pintura mais visceral ao usar amadeira”, afirma. “Os compensados eram cor-de-rosa, me lembravam pele, carne.”
Transições. “Sou pintor que não faz só pintura. Mesmo quando o meu trabalho está nessa dimensão, em um espaço com oeste, com essa referência arquitetônica e escultórica forte, ele também tem situações pictóricas nas madeiras, cores, texturas”, expressa. Aos 40 anos, o artista já é um dos mais destacados da cena brasileira, com trajetória de alcance internacional.
Em 2013, ele criou a instalação Baitogogo para o Palais de Tokyo, em Paris (e uma obra sua ainda está em cartaz no local), além de ter exibido suas criações, recentemente, em instituições de várias partes do mundo. “Meu trabalho funciona bem como imagem. Ele pode ser compreendido num nível profundo, mas também qualquer pessoa vem e se relaciona com a obra. Não sei se é bom ou ruim, não importa. Acho interessante que fale também ao público de uma maneira geral, não é cifrado, é uma coisa mais democrática”, analisa Henrique Oliveira.

CAMILA MOLINA. Do moderno ao Arcaico. Jornal o Estado de São Paulo, 27 de abril de 2014.