Patrimônio em debate 

Uma escultura encontrada por acaso pela equipe do jornal O Estado de S. Paulo em Santiago do Chile tem causado furor entre especialistas de arte. Isso porque a obra, após análises preliminares, teria sido atribuída ao maior mestre do barroco brasileiro: Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

A imagem de madeira representa o santo católico San Pedro Pascual e se encontra no pequeno Museo Merced. Embora seja de suposta autoria de um artista peruano, ela carrega grande semelhança com as obras de Aleijadinho – em especial no que diz respeito aos chamados estilemas (detalhes que funcionam como uma assinatura do autor na escultura).

Desde a descoberta no mês de março, diversas hipóteses foram levantadas, entre elas a possibilidade de a peça ser uma fusão de esculturas diferentes, inclusive do celebrado artista mineiro, mas a grande questão ainda reside na legitimidade das obras de arte através do tempo.

Originais de famosos pintores e escultores tendem a adquirir seu valor material por conta de valores abstratos e subjetivos, atribuídos por pessoas ou instituições que legitimem tais manifestações artísticas. São famosas as histórias de grandes gênios da arte que jamais receberam em vida o devido reconhecimento por seu trabalho.

A autenticidade de uma obra, portanto, talvez tenha menos importância do que o impacto por ela causado na sociedade ao longo dos anos. Trata-se de uma soma de características que concedem a um objeto a sua “aura”. Nesse sentido, tamanha foi a força com que Aleijadinho arrebatou a arte escultórica brasileira, que a mera possibilidade de um novo exemplar de seu trabalho levanta debates entre admiradores e críticos.

A atemporalidade – esse sim é o maior estilema das esculturas de Antonio Francisco Lisboa.

(Texto: Katia Kreutz) (Imagem: Jotabê Medeiros/AE)